Studio Made in PB Entrevista: Allan Jeff

Paloma Diniz

Paloma Diniz

Eu costumo dizer que as verdadeiras amizades superam as provas do tempo, da tolerância aos defeitos, e da distância.

Com Allan Jeff não é diferente. Nunca vi esse homem pessoalmente; mas apesar da distância, é um amigo presente na minha vida. Conhecemo-nos nas redes sociais (salve o feicibuuk) e começamos a conversar sobre coisas em comuns entre nós: QUADRINHOS. Recentemente, fiz teste de arte final para o mercado de quadrinhos, coincidentemente os desenhos eram páginas feitas por ele; após o insucesso do teste, eu mostrei pra ele; e gentilmente, ele me orientou no que melhorar.

Mesmo na distância, eu na Paraíba e ele em Minas Gerais, sempre partilhamos o nosso cotidiano.

Allan Jefferson trabalhou nas seguintes HQs: Teen Titans, LJA, Taco Time: Thor, War Machine #6, #7 , #9 e #10, Crosshair, Predators, Iron Man vs. Fin Fang Foom, e Transformers: Prime. Em algumas fez capas, noutras fez desenhos internos e arte final.

Aproveitei-me da intimidade e convidei-o para uma conversa sobre seu ofício sagrado de todos os dias: desenhar.

 

Allan Jeff

 

Paloma Diniz: Boa noite, Jeff.

Allan Jefferson: Boa noite.

 

PD: Não quero te atrapalhar…

AJ: Tudo bem, não está.

 

PD: Quero primeiramente agradece por você ter aceitado meu convite para esta entrevista.

AJ: é um prazer. Vai ser pelo talk mesmo?

 

PD: Sim e ficará registrado para eu transcrever com calma antes de enviar para a edição do Farrazine. Jeff, você faz jus aos apaixonados por quadrinhos? Que comem quadrinhos, respiram quadrinhos, lêem quadrinhos, bebem quadrinhos…ou não?

AJ: Eu queria fazer mais. Já fui assim. Ia a todos os eventos que podia, lia muito revistas da Marvel, DC, Dark Horse, etc. Incluindo os mangás! Mas com o tempo fui mudando meus gostos por leitura. Claro que você não deve pensar que eu não adoro os quadrinhos, independente de ler ou não, ainda amo esse universo.

 

PD: E como foi este enamorar por quadrinhos? Seu primeiro contato com este universo?

AJ: Eu posso dizer que tive dois “primeiros contatos”.
O primeiro foi o básico, aos seis anos seus pais começam a lhe dar revistas para você aprender a ter gosto por leitura e claro que nisso os quadrinhos ajudam demais! Afinal, palavras com imagens são mais assimiláveis. Mas isso durou apenas alguns anos.
O grande amor mesmo veio em 1994, quando a paixão pelo antigo desenho dos X-men me levou a comprar a primeira edição com meu próprio dinheiro: x-men 70/ programa de extermínio, parte 3. E daí pra frente foi só aumentando.

 

Vampirella

 

PD: Eu lembro deste desenho, era muito bom! A 1ª edição dos X-Men que comprei foi a nº 50 que tem a primeira aparição de Jubileu e a morte de Vampira. E como foi que você tornou-se desenhista de histórias em quadrinhos?

AJ: Foi no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) que teve Em BH no ano de 2007. Quando o Editor da DC Comics (Ed Berganza) veio nos fazer a primeira visita. Houve uma avaliação de portfólio e quando eu fiquei sabendo, corri para lá com uma pasta A3 cheia de desenhos!
O normal para avaliação é de 7 a 10 folhas, a maior parte em páginas e talvez uns 02 pinups. Eu levei 70 folhas. rsrs. Queria mostrar tudo e não sabia escolher. Fui o último da fila em uma fila gigante que duraram 2 horas ou mais.
Levei uma ex-namorada, escolhi rápido 07 páginas na hora, pedi ela para segurar bem próximo dele os que eu não ia mostrar e mostrei apenas essas 07. Ele viu e quis analisar os outros 63 desenhos. rsrs. Claro que nessa hora eu pirei de alegria.

 

PD: E qual foi o primeiro contrato pra desenhar quadrinhos?

AJ: Liga da justiça. Um teste pago resultado dessa avaliação. 06 páginas de lápis, arte final e muita dor nas mãos. kkkk…

 

PD: Tu lembras o número desta edição da Liga?

AJ: Liga da Justiça n°75 no Brasil; a original eu não me lembro agora…

 

PD: E o que você está desenhando no momento?

AJ: Uma mini- série chamada “Devil is Due in Dreary”. Além de uma história curta de 06 páginas que fiz para um site.

 

 

PD: Como é seu ritual de trabalho?

AJ: Bem vampiresco na maioria das vezes: trabalho a noite, a madrugada e às vezes a manhã.
Ai vem o caminho que eu sigo: Leio o roteiro (ou o que me enviaram dele, pois nem sempre vem por inteiro), leio de novo e começo a esboçar cenas. Faço os layouts em A4, envio. Quando vem o retorno, aprovação e etc., eu passo o layout para o A3 da seguinte forma: faço uma impressão da página em formato A3 (no meu caso, duas folhas de A4 coladas), Faço mesa de luz em cima do layout e a partir dai, mudo e melhoro o que eu sei que pode ficar melhor no lápis.

 

PD: Quais foram os trabalhos que marcaram você pessoal e profissionalmente? Aqueles que você não esquecerá nunca!

AJ: Essa é uma excelente pergunta. Mas complicada de responder de uma forma exata.
O primeiro (que já comentei), Depois o que eu fiz de 04 edições para Marvel no “Warmachine. E o atual, onde eu criei muito do visual, são grandes trabalhos para mim, que me enchem o peito.
Mas nunca deixaria os outros de lado, incluindo Crosshair para a Top Cow, onde também criei o visual com o Marc Silvestri.
Eu nunca esquecerei estes, mas para ser sincero, tirando raras exceções, tive um bom relacionamento até agora com meus clientes e eu valorizo demais isso. É o mais importante nesse trabalho, pois é apenas assim que você fará tudo da melhor forma, tanto para você, quanto para o cliente e também para quem for ler. Só que sempre pode melhorar.

 

 

PD: Quais os artistas que te influenciaram?

AJ: Rsrsrs. Tantos! Vou citar os que mais influenciaram: Moebius, Travis Charest, Kevin Nowlan, Mark Farmer, Stuart Immonen, Alphonse Mucha, Adam Hughes, Shinkiro, Koji Morimoto, Paolo Eleuteri Serpieri, Berni Wrightson, Tim Bradstreet, J. G. Jones e JH. Williams.
São artistas cuja arte eu admiro muito e me serviram como escola.

 

PD: Você roe o lápis enquanto está pensando no que irá desenhar?

AJ: Ahahaha Depende do momento. Não existe uma regra entre não saber o que desenhar e saber.
Às vezes eu sei de cara, às vezes demora um tempinho. Mas uma coisa é certa, eu gosto de trabalhar com roteiros. Justamente porque me sinto bem em poder colocar algo novo em cima daquela determinada idéia que me passaram. Ou seja, eu adoro fazer “adaptações” dos roteiros que me passam.
Mas sim, às vezes isso demora um pouco, às vezes não. O problema é que nesse trabalho não se pode demorar muito, então você é obrigado a encontrar incentivos para o cérebro.

 

PD: Mas você roe o lápis?

AJ: rsrs. Lapiseirano meu caso. Isso é uma mania? Eu tenho uma diferente.

 

PD: Kkkkk… Qual é esta mania?

AJ: Quando eu estou muito empolgado em fazer uma página eu começo a mexer os dedos como se estivesse contando. Faço isso enquanto olho o que posso fazer no desenho. Como toda mania a gente só nota depois que já está rolando.

PD: Kkkkk….Obrigado pela entrevista, Jeff.

 

 

Entrevista publicada originalmente no FARRAZINE #24

Se você deseja conhecer mais sobre o trabalho de Allan Jeff acesse: Space Goat Productions, Facebook