Studio Made in PB Entrevista: John Banana. Confira uma entrevista exclusiva com um dos novos talentos da animação mundial

Januncio Neto

Januncio Neto

Se você gosta, estuda ou já trabalha com animação, provavelmente já ouviu falar de John Banana ou visto algum de seus trabalhos. Com quase 15 anos de experiência, John Banana lidera o Digital Banana Studio, ele dirigiu dezenas de comerciais, pilotos de séries de TV, incluindo o primeiro “Raving Rabbids”, uma louca campanha popular que levou ao sucesso da franquia, e ajudou a trazer ao mundo do 3D personagens como “Maya: The Bee”, Heidi, Zou, Little Vampire entre outras produções.

Também o responsável pelo curta em homenagem ao personagem Rocketeer e dirigiu o premiado Orange Ô Desespoir, além de ja ter trabalhado com animações para artistas como Linkin Park, Black Eyed Peas e Justin Bieber.

Esta entrevista foi realizada no ano passado e aparentemente tinha sido perdida numa formatação de sistema, mas para nossa sorte foi salva e agora temos o prazer de poder trazê-la para todos vocês. Divirtam-se!😉

 

John Banana Teaser 07

John Banana: Fundador e líder da equipe responsável pelos trabalhos do Digital Banana Studio

 

Januncio Neto: Essa é uma pergunta clássica, mas é sempre relevante, ainda mais quando estamos falando com um profissional de tamanha experiência e talento como você. Quando foi que você percebeu que fazer desenhos e animações seria uma coisa muito importante na sua vida, e qual o fato responsável por isto?

John Banana: Eu sempre desenhei quando criança, fazendo minhas próprias HQ’s em pedaços de papel. Como estudante, eu acabei indo para cinematografia na universidade. Foi durante meus estudos de cinema que meu melhor amigo me mostrou no AMIGA (sim, há muito tempo agora) o que era computação gráfica. Eu provavelmente comecei com um vidro em raytrace (traçado de raio = método de renderização)🙂 e então uma nave espacial…e, como você sabe, se você tem amor pela coisa, ela acaba crescendo, crescendo dentro de você. Até que mudei de direção, de cinema para CG, na mesma universidade perto de Paris.

 

JN: Você estudou em alguma escola ou faculdade de animação? E quão importante é o conhecimento acadêmico na vida de um animador?

JB: Eu não tive realmente aulas de animação, mas tive meu “memoire” (uma espécie de trabalho de conclusão de curso) em regras da animação da Disney, então, aquilo era algo que eu realmente queria, mesmo que eu não fosse um bom animador naquela época. Meus anos de universidade foram mais uma forma de aprender a trabalhar em grupo e desenvolver o lado criativo do trabalho. Eu queria ter tido aulas clássicas de 2D, mas não era parte do nosso aprendizado, infelizmente…

Eu acho que se você quer entrar na animação, você tem que aprender as regras, e então praticar, praticar, praticar e praticar… Pegar o máximo de críticas e comentários sobre o seu trabalho. O que eu gosto de fazer os com outros animadores é paintovers (retoques sobre o trabalho original). Mesmo que eu não tenha certeza por que uma animação não está boa o suficiente, se você for ao Photoshop e começar a fazer paintovers numa determinada posição, você percebe rapidamente como fazê-la melhor, mais claro, mais estilo cartoon…

 

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Orange Ô Desespoir: Curta de animação produzido por John Banana e vencedor de vários prêmios

 

JN: Você é um profissional estabilizado reconhecido no mercado, quais foram os maiores desafios que você enfrentou na sua carreira?

JB: Eu venho da indústria de videogames. Não era exatamente o que eu queria fazer depois da faculdade, mas devido a algumas circunstâncias, acabei trabalhando por 7 anos num grande estúdio de videogame, fazendo computação gráfica principalmente para cutscenes (cenas pré-animadas e/ou renderizadas) e trabalhando em alguns jogos em engines de tempo real.

O maior desafio provavelmente foi sair da vida estável em um grande estúdio e começar como freelancer, encontrar os primeiros clientes, e então começar minha própria companhia. Ir de estúdio de vídeo-game para estúdio de animação não é tão fácil. Na verdade, são trabalhos bem diferentes, e leva muito tempo e trabalho duro para começar a ser reconhecido e receber ligações… A coisa mais importante é não pensar em fama ou dinheiro e trabalhar com as pessoas certas. Conhecer meu braço direito, Elton Banana, foi essencial, já que começamos a aventura Banana juntos. E paixão: você não pode ter sucesso se não é apaixonado por seu trabalho. Não haveria um único projeto

 

JN: Sobre sua animação, “Orange O Désespoir”, qual foi sua inspiração para tal? Qual a história? Quem mais participou no projeto? O que achou do feedback do público?

JB: “Orange O Désespoir” vem do ensaio de uma logo. Se eu explicar a história toda, eu vou estragar a surpresa, mas estávamos filmando algumas frutas para fazer uma logo para o Banana… e uma ideia leva a outra, então, surgiu a idéia de uma Laranja que seria ser algo mais. Eu achei a ideia muito legal, e comecei a desenvolvê-la mais tarde. É um curta bem curto, aproximadamente 3 minutos de animação. O conceito mudou um pouco depois de fazer a homenagem a Rocketeer. Deixamos o curta por um ano, e quando decidimos terminar, removemos quase toda a parte metafísica para transformar mais em um curta bobo e engraçado… Um dos meus curtas favoritos ainda é o “For the Birds”, sem perseguição maluca (50% dos curtas de estudantes nos dias de hoje), sem ideia metafísica complicada, apenas uma simples e boa animação com um final engraçado. Eu acho que Orange O Désespoir, sem nenhuma pretensão, está exatamente nessa categoria de curtas. Até mesmo o personagem, de certa forma, pode lembrar o formato de pássaros, e a ideia de ser diferente é o começo do nosso curta.

Tentamos manter o projeto realmente muito pequeno, quase como um curta de estudante… Uma pessoa (Guillaume Fesquet) na prancheta, outra (Elton Banana) para criação de personagens, outra (Thomas Vuillier) para os sets, outra (Stein Lotveit) para o rig, outra (Clément Marchal) na renderização, e no final, dois animadores no lugar de um (Fawzy Zidane and Francois Laurent), com uma música original bem legal de Anthon Wellsjo… trilha por Olivier Ranquet (o supertalentoso programador de som oficial do Banana) e Odrey Banana para organizar toda essa bagunça.

Bill Presing, da Pixar, teve uma participaçãozinha no curta. Foi muito legal da parte dele fazer um desenho super legal para abertura do curta.

Acho que a reação tem sido muito boa até então. Nós temos mais de 20 seleções em festivais, e o ano de festivais ainda não terminou… Espero que peguemos mais alguns antes de colocarmos o curta online.

 

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Cena do curta produzido por John Banana em homenagem ao personagem Rocketeer, criado por Dave Stevens.

 

JN: Sou um grande fã do filme e das HQ’s do Rocketeer, e foi com grande satisfação que assisti sua animação sobre o personagem. Qual foi sua motivação para produzir essa animação? E como as pessoas reagiram?

JB: Sempre fui um grande fã do filme original. Um tempo depois eu descobri o trabalho de Dave Stevens. Eu pensava, quando Dave ainda era vivo, que Rocketeer daria um personagem de desenho incrível. Então, comecei uma pesquisa. Alguns anos depois, Dave faleceu e nós decidimos a levar o projeto adiante e fazer um pequeno trailer/homenagem de como seria um programa de sábado de manhã do Rocketeer. Meu pai faleceu na mesma época e foi um projeto que realmente me motivou e manteve minha mente ocupada…

Você pode ler um pouco mais se estiver interessado no site BIGFANBOY.

 

JN: No Brasil existem muitos artistas se dedicando a produzir animação e a cada ano a produção vem ganhando mais espaço, como você e outros animadores vêem o Brasil em relação à animação feita por brasileiros?

 JB: Há muito talento no Brasil… Meu bom amigo, Vitor Vilela, é um deles e sou também grande fã do trabalho de Pedro Conti

O Brasil é cheio de talentos, e muitos estúdios estão entrando no jogo… Ainda estou esperando para ver um grande filme em CG vindo de lá.🙂

 

JN: Qual o seu processo de criação e design dos projetos, e qual o seu próximo projeto?

JB: O processo é o de sempre: um cliente vem com uma ideia, um esboço ou, às vezes, com o projeto pré-montado. Somos bons também em levar um personagem de origem 2D para CG, e tentaremos ao máximo trazer aquilo à vida. Para um projeto como Rocketeer or Orange, onde não há cliente, é um vai e volta entre eu e Elton para tentar levar o personagem numa direção que gostemos. Cada um tentando melhorar o personagem… Começa com algum desenho prévio que um de nós faz, daí Elton faz um V1, eu desenho nele, nós discutimos, e geralmente o V2 fica bem próximo de como o personagem final ficará… Então, faço algumas decisões técnicas em algum ponto, onde podemos mudar o modelo e às vezes o seu design e proporções para facilitar na animação.

 

John Banana Teaser 05

“Maya: The Bee” um dos mais recentes trabalhos do Digital Banana Studio

 

JN: Você é um artista gráfico, produtor, animador e diretor. Qual dessas funções traz mais satisfação para você? Como é o ambiente de trabalho no Digital Banana Studio?

JB: É um tipo diferente de satisfação. Ser um artista é o que me instiga a ir adiante. Tentar fazer a maior variedade de trabalho possível, seja ele animado ou não… Eu ficaria muito entediado se não fosse instigado por esta paixão em criar imagens e contar histórias. Ser dono e produtor do meu próprio estúdio é um tipo diferente de satisfação. Quando o é, porque na maior parte do tempo é realmente trabalho duro e estresse para coincidir prazos ou citações e lidar com as centenas de problemas que você pode encontrar. Mas aprendo todo dia, e quando vejo um cliente retornando, é aí que o prazer acontece. A satisfação de fazer meu cliente feliz.

 

JN: John, eu em nome de todos, posso apenas agradecê-lo por sua paciência e atenção com a nossa equipe e nos proporcionar esta oportunidade. Muito obrigado por tudo.

JB: Obrigado por isto foi um prazer.

 

Quer conhecer mais sobre John Banana e os trabalhos do Digital Banana Studio, acesse os links a seguir:

Digital Banana Studio, John Banana on VIMEO, Digital Banana Studio YouTube Channel, Digital Banana Studio Facebook Group

 

A seguir confiram alguns videos produizidos pelo Digital Banana Studio.


 

Agradecimentos especiais a Bianca Lúcia, Roberto Gomes e Lídia Byanca, pela ajuda com a tradução e informações técnicas.