Declarações polêmicas em relação a caso de estupro no Rio, resultam em afastamento de “artistas” de renomada agência

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O jornalista e tradutor Pedro Henrique Leal, publicou em seu perfil no Facebook, um texto relatando fatos a respeito de dois (agora) ex artistas da agência Chiaroscuro Studios, envolvidos em declarações polêmicas relacionadas ao caso de estupro coletivo, envolvendo uma menor de idade e 33 “homens”.

O fato despertou indignação de internautas e outros profissionais do mercado, a polêmica chegou até a direção da agência Chiaroscuro Studios, que de imediato e excluiu ambos de seu quadro de artistas. Em seguida a agência emitiu a seguinte nota em seu site:

 

Aos nossos fãs e amigos,
 
O mais recente caso de violência contra a mulher nos encheu de tristeza e indignação.
 
Cabe a nós defender, valorizar e apoiar as mulheres, a comunidade LGBT e todas as minorias e causas que representam uma luta pela justiça, liberdade e igualdade, que entendemos como questões que são mais profundas que a simples polarização política. A apologia e banalização da violência e da discriminação não cabem mais na sociedade e tampouco em nossa empresa.
 
Por esse motivo e à luz dos recentes acontecimentos que acabam de chegar ao nosso conhecimento, decidimos encerrar o relacionamento com artistas não alinhados com valores que, para nós, são absolutamente inegociáveis.
 
#NãoÀCulturaDoEstupro e que nossa sociedade seja cada vez mais justa, igualitária e inclusiva.
 
Direção e artistas da Chiaroscuro Studios.

 

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A seguir vocês poderão ler o texto de Pedro Henrique Leal na integra e a partir dele tirar suas próprias conclusões a luz dos fatos.

 

De muitas maneiras, o caso absurdo da menina estuprada por mais de 30 homens esta semana revelou a hipocrisia peculiar do brasileiro médio. Aqui, quero comentar uma delas.

Em seus perfis do Facebook, dois quadrinistas brasileiros (cujos nomes não serão revelados) fizeram comentários particularmente odiosos sobre o caso. A ladainha é velha: “deu por que quis”, “culpa das feminazis”, racismo, machismo, e uma dose extra de transfobia ao dizer que ‘graças a ideologia de gênero’ os 33 envolvidos podiam “se safar” alegando serem mulheres – um discurso já bem conhecido da direita brasileira para equacionar transsexual com estuprador.

Um dos artista em questão trabalha para a DC Comics, que não comentou nada a respeito – mas em vista que a editora PROMOVEU um editor envolvido em casos de assédio sexual, é pouco provável que condene o discurso. O outro é conhecido por seus trabalhos para a Chiaroscuro, que tratou de repudiar a conduta dos dois e informar via sua página no Facebook que não firmaria novos contratos com o artista antes ligado a ela.

Onde é que entra a hipocrisia a moda brasileira nessa história, você se pergunta?

Bem, de imediato a Chiaroscuro foi acusada de “censura” e “perseguição ideológica”; a decisão de não contratar novamente um artista que fez apologia ao estupro foi comparada com o holocausto; cidadãos indignados sugeriram um boicote contra a editora e ofereceram ajuda ao artista em abrir um processo “por danos morais” e “calúnia” – embora o nome do mesmo não fosse citado pela editora – e a editora foi acusada de ser ditatorial.

Eis a hipocrisia: a maioria dos que correram em defesa do ilustrador defendiam um discurso muito repetido no Brasil: o de que “esquerdopatas” e “petralhas” devam ser demitidos, não contratados e ostracizados no mercado de trabalho. Um dos mais verborrágicos defensores, que fez a comparação com o Holocausto, é um blogueiro da área de quadrinhos (nem ele nem seu blog serão nomeados). O mesmo blogueiro sugeriu que Sana Amanat e G. Willow Wilson fossem demitidas pelo “crime” de criar uma personagem muçulmana, e que roteiristas que criam personagens gays ou defendem quem o faz deveriam ser proibidos de trabalhar.

Da mesma maneira, vários deles pediam a demissão, a censura ou a prisão de colunistas e formadores de opinião que repudiaram o caso e apontaram os fatores sociológicos por trás dele – mas consideram como censura quem sequer aponta a apologia implícita ao estupro em “piadas” como “estuprador de mulher feia não merece prisão, merece abraço” (Rafinha Bastos) e “o nome de quem faz isso [embebeda a ‘gostosa’ pra transar com ela] é gênio” (Danilo Gentili).

Assim como revelou até onde pode chegar a cultura de estupro no Brasil (e acreditem: esse caso não é nem o pior que o Brasil já teve, e nem o pior que pode ter), também revelou o quanto o brasileiro pode tolerar a apologia ao estupro, e quão pouca tolerância ele tem com quem critica essa mentalidade.

Deveríamos ser melhores que isso. Mas não somos. Tem muita coisa a ser mudada nesse país culturalmente, em um problema que não é só nacional: é mundial.

 

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O Studio Made in PB parabeniza a atitude da Chiaroscuro Studios, além de repudiar veementemente a postura dos dois “artistas” lamentavelmente envolvidos em tão triste situação.

É preciso entender que a liberdade de expressão em nenhum momento deve ser reivindicada como justificativa para tais declarações. Todos tem o direito de expressar seus pontos de vista e opiniões, porém ela (a liberdade de expressão) não os exime de responsabilidade pelas mesmas.

Enquanto as pessoas não entenderem o real sentido e importância da liberdade de expressão, estaremos sujeitos a conviver com este tipo de preconceito “travestido” de opinião.

 

 

FONTE: Pedro Henrique LealChiaroscuro Studios